O DOM DE ILUDIR

O título é repetido porque a história se repete com personagens diferentes.
Há anos, uma década na realidade, no auge da minha ignorância, acreditei num certo “partido dos trabalhadores” e no seu líder, um tal de Luiz Inácio aka Lula. Como muitos cidadãos, não só acreditei nestes indivíduos, como trabalhei anonimamente, pedindo votos, distribuindo santinhos e estrelas (onde andarão?) nas esquinas e, neles, votando. Recebi risos irônicos, olhares penalizados e até insultos. Apesar disso, continuei crendo até que o mensalão mostrou que o rei e seu séquito estavam nus. Nus de ética, de honestidade, de vergonha na cara. Uma nudez conhecida por tantos desde antes e nunca revelada. Jurei nunca mais acreditar em nenhum político brasileiro.
Entretanto, minha ignorância parece ter aumentado com idade. Por isso, voltei a acreditar, a defender, a pedir votos, a votar em um deles. Que Deus tenha compaixão por pessoas como eu, eleitores antas, diante da capacidade infinita dos políticos deste pobre país de enganar, corromper e roubar, principalmente nossas ilusões.

Refiro-me ao senador Demóstenes Torres. Este soube, como os petistas e seu famigerado líder, enganar os cidadãos durante muito, muito tempo. Neste indivíduo, muitos acreditaram. Muitos o admiravam como uma das poucas pessoas confiáveis naquele mercado conhecido como congresso nacional brasileiro. Um jurista, ex-procurador, Demóstenes representou com talento inigualável o papel de opositor dedicado das práticas corruptas que, continuamente, envolvem as excelências no legislativo e no executivo. Para muitos, era um dos pouquíssimos, quiçá o único, parlamentar a merecer o respeito do povo deste país.
Sou goiana e o admirava e não estava sozinha nesta admiração. Diante da atual e generalizada mediocridade dos políticos goianos, Demóstenes era uma luz, não só por sua acreditada honestidade (que ironia!) como por sua atuação relevante, sempre ligada a temas importantes para a defesa da ética e dos interesses cívicos (ai, que engano!).

Até agora, confesso, tenho dificuldades para acreditar, mas até o Ataulfo, meu poodle, se aqui estivesse, já teria entendido que não se pode negar o que as provas demonstram.
Com seu dom de iludir e, para vergonha de quem o respeitava, Demóstenes Torres colocou no mesmo balaio – dos admiradores – dois grupos excludentes e inimigos: um, dos cidadãos honestos que o tinham como referência no abismo de corrupção que engole as instituições brasileiras; outro, dos criminosos a quem se aliou, à custa do desrespeito às leis, à ética, à honestidade.

A revelação da verdadeira face de Demóstenes provocou indignação e desalento. Estes sentimentos são intensificados pela informação de que a polícia já sabia, desde 2006, que o senador era intimamente ligado ao poderoso Carlos Cachoeira.
Tal qual o petismo, há quase uma década que o antes honrado cidadão nos engana. Não é a mesma história, ainda que com outros personagens?

Mais uma vez, o luto. De Demóstenes Torres sobrou o aliado dos criminosos; o senador honesto morreu. 

E SE A COPA FOSSE NO ENTORNO DO DF OU NO PARÁ?

A favela, digo comunidade, carioca está livre dos traficantes? Ah! Que alívio, que felicidade!

O país assiste, emocionado, o sucesso dos responsáveis pela segurança pública nas favelas (perdão, comunidades) da cidade do Rio de Janeiro. A mídia não se cansa de mostrar as mudanças efetivadas pela ação conjunta de polícias e forças armadas nestes locais.

Entretanto, o povo brasileiro não consegue se emocionar com a violência crescente no miserável espaço que cerca Brasília; também não se sente tocado pela criminalidade na tríplice fronteira; da mesma forma, nem percebe a miséria ancestral dos cidadãos (?) nos estados amazônicos, dominados por donatários cada vez mais ricos e poderosos.

Assim como não consegue se emocionar com estas desgraças (perdão, pelos termos dramáticos), o povo brasileiro parece incapaz de fazer umas perguntas básicas:

Por que as mesmas forças usadas na cidade do Rio não são utilizadas em Águas Lindas (GO), cidade dormitório ao lado de Brasília, uma das mais violentas do Brasil?

Por que estas forças não se unem no Pará para “desalojar” os desmatadores, os grileiros, os assassinos de gente ligada à defesa do meio ambiente?

Por que as cidades fronteiriças de Mato Grosso ou do Acre, dominadas por contrabandistas e traficantes e outros criminosos não são “ocupadas” pelas forças de segurança unidas, tal qual foram as favelas, perdão, comunidades a cidade do Rio?

O povo brasileiro não pensa nisso. Não pergunta, não fala.

E os supostos representantes deste povo, em Goiás, no Paraná, em Mato Grosso, no Pará, seja lá onde for neste país, que deveriam fazer estas perguntas, nada fazem, ocupados que vivem com seus negócios e seus interesses. Afinal, neste país, políticos trabalham para si e não lhes sobra tempo para pensar em povo e suas constantes e ínfimas misérias.

Aqui em Goiás, por exemplo, não vi nenhum deputado exigir, no plenário, estadual ou federal, que o entorno do DF fosse “ocupado” pelo aparato que chegou a Rocinha ou ao Alemão. E no tal entorno, meu amigo, há muitos anos, a morte violenta é a mais constante presença.

Ai, pobre povo que vê o cisco no olho do outro e não o tijolo que o vitima todo dia, todo dia...

QUEM DEVE ESCONDE O ROSTO

Para mim, a imagem de gente com o rosto coberto, escondido sob panos, como mostrada na PUC, sempre evoca coisa ruim: terrorista, bandido, vítima de bandido, mulher oprimida por religiosos fanáticos.

Diante de tragédias, o pano cobre o rosto dos vândalos que saltam sobre cadáveres para tomar o que não lhes pertence. Em situações de conflito, o pano cobre o rosto dos violentos e covardes que ferem e matam. Mesmo quando a arrogância e a certeza da impunidade conduzem os indivíduos, o pano cobre suas faces, porque, no fundo, nada mais são que covardes.

No Brasil, o rosto coberto é típico dos criminosos porque, a eles, a lei assegura este direto. As vítimas, sem leis que lhes assegurem qualquer coisa, preferem o anonimato e o silêncio.

O nosso país vive um vale-tudo, onde criminosos confessos (ou não), incluindo desde traficantes e corruptos – cujas faces estão expostas – até os “menores” assassinos, são absolutamente protegidos pela legislação. Neste cenário, o pano cobrindo as caras é dispensável; mas covardes são covardes, mesmo em ambiente propício à bandidagem.

No Brasil, o pano cobrindo a cara é um dos símbolos do vale-tudo. Os outros são o terno de grife, a cara pintada dos índios e as bandeiras vermelhas. Quem se colocar sob um destes ícones, está livre para agir, atacar, violentar a ordem pública e tomar o alheio com a certeza de que será protegido pelo establishment.

Estes privilegiados invadem espaços privados e públicos, quebram, queimam, roubam, corrompem, enriquecem e recebem do Estado a proteção negada àqueles que trabalham, produzem e sustentam o país.

A estes últimos, a maioria dos cidadãos brasileiros, cujas faces estão expostas – sem pano, terno ou bandeira vermelha – a cobri-las, é negada toda proteção devida pelo Estado. A estes, só resta o pagamento, cada vez mais pesado. E a vergonha e a dor e o medo.

Contudo, é bom lembrar: gente realmente livre não cobre a cara com pano nenhum, nem com estranhas bandeiras.

A MORTE DE ITAMAR FRANCO

Com a morte de Itamar Franco, não perde apenas o congresso nacional. Ao país inteiro, falta um pedaço, um dos mais dignos e melhores pedaços.

O congresso nacional perdeu um dos últimos guardiões da ética, da sobriedade, do respeito aos cidadãos e ao espírito republicano. Estas expressões podem parecer frases feitas de obituários, mas não são. O ex-presidente Itamar Franco viveu e praticou a política movido pelo sentimento que estas expressões tão esquecidas, apregoam. Ele as defendeu e as vivenciou em todos os momentos. Quem, no congresso nacional brasileiro, seguiu seu exemplo?

Itamar, sim, é o verdadeiro representante do povo brasileiro, tanto no parlamento quanto no exercício da presidência da república: nunca se rendeu à vaidade, nunca usou o erário em benefício pessoal, nunca confraternizou com corruptos e lobos. E, last but not least, não criou oligarquias ou se aliou a barões oligárquicos, que tanto mal ainda fazem ao país.

O grande homem que sempre foi, nunca se curvou aos poderosos e teve coragem sempre de se opor aos seus aliados quando estes, em defesa do poder, desviavam-se dos compromissos políticos que haviam assumido. Foi assim com o famigerado Collor, com o vaidoso Fernando Henrique e com o falacioso Luiz Inácio da Silva.

O Brasil perdeu um dos últimos defensores da ética política. Neste cenário político em que o país se vê mergulhado há quase uma década, onde predominam a negociata, a chantagem, a corrupção, a mentira e o uso dos recursos públicos em benefício de países estrangeiros e até, de conglomerados particulares, esta é uma imensa perda.

O exemplo da vida e da atuação política de Itamar Franco deveria servir para os outros tantos parlamentares brasileiros. Infelizmente, ele foi considerado um excêntrico, neste triste país onde os honestos são “esquisitos”.

Por isso mesmo, o nome de Itamar Franco não deveria ser pronunciado por certos indivíduos: aqueles que praticam, na vida política, tudo o que ele repudiou, por palavras e ações.

Aliás, a mídia informa que, ao contrário de Itamar Franco que, nem depois de morto, usou o dinheiro público em proveito próprio, os senadores brasileiros, cegos e surdos às lições deste grande político, vão usar um avião da FAB para viajar a Minas Gerais. Vão aparecer no velório de um cidadão dos mais importantes, neste país, da luta pela ética, pela sobriedade e pelo respeito absoluto aos cidadãos que, ele sim, sempre representou. Cínicos!

Deus o receberá, Itamar, de braços abertos, como você merece.

É DIFÍCIL SER PETISTA

Amigos, devemos admitir: não é fácil ser petista. Por mais poder e riquezas que os indivíduos deste grupo político exerçam e acumulem, o dia a dia deles é muito difícil.

Para ser um deles, convenhamos, é necessário engolir o veneno rotineiramente destilado por serpentes perigosíssimas que, ao contrário daquelas da fauna, sequer se preocupam em usar a camuflagem.

Para ser petista, meus amigos, o indivíduo precisa ser capaz de fingir cotidianamente, mentir, tergiversar, principalmente para si mesmo. Há que “relativizar” a ideologia, a crença, os fatos. Há que falsear a realidade e, mais difícil, convencer os outros de que a farsa é a verdade. Ser petista é nunca dizer não, ainda que diante da percepção inegável dos fatos.

Caso me permitam a comparação, o petista é como o dragão de Machado de Assis para quem é necessário espernear, aparentemente expirar e, depois renascer. E eles, os petistas, sempre repetem este ciclo. São os dragões que incendeiam a moralidade brasileira, há muitos anos. Nem é preciso dizer por que, uma vez que basta ver como gente, antes honesta, chamuscou-se, queimou-se, torrou-se sob o maligno fogo deste monstro.

Em um mundo normal, onde existisse o respeito pelo país, indivíduos que tripudiam sobre a ética, seriam execrados. Aqui, os luminares da política, da academia e das artes engolem o fogo que destrói as instituições republicanas. Aqui, copiamos, canhestramente, o mundo orwelliano, onde a “mentira é verdade”. Os petistas nos levaram para “1984”.

É difícil ser petista e fingir para si mesmo cotidianamente.

Entretanto, não somos iludidos. Os petistas adoram ser do jeito que são. Na ânsia pelo poder, jamais hesitaram em se lançar até dentro de cuecas.

Ser petista é mentir, engolir mentiras e defender os mentirosos, à custa da própria consciência.

Aliás, ser petista é ignorar a consciência.

O MINISTRO QUE PENSA QUE É DEUS

Permita-me tomar seu tempo com uma nulidade. De início, eu me justifico porque tal nulidade ocupa um dos mais altos cargos da república brasileira: ministro do supremo tribunal federal.

A entrevista que o mais novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, concedeu ao G1 demonstra em cada frase, em todas as declarações, um primarismo constrangedor vindo de alguém que ocupa tal cargo, portador de um currículo que parece indicar capacidade, conhecimento e saber.

“Sobre feto anencéfalo (sic), eu li um artigo e até guardei”. Assim o ministro esclarece sua posição e seu julgamento sobre este tema.

Sobre o assassino de Realengo (RJ), a excelência assim se manifestou: "É um sujeito que não podia estar solto nunca. Tinha que ter uma medida restritiva de liberdade. Será que ninguém viu isso? Porque não acharam antes isso? Esse homem não tinha um pendor para aquilo? Será que ninguém teve oportunidade de denunciar isso?".

Tal declaração demonstra que o ministro diagnosticou, julgou e condenou o indivíduo e ainda se arvora em psiquiatra ao perguntar sobre o “pendor” (que palavra horrível!) do assassino. Ao mesmo tempo demonstra sua falta de conhecimento sobre as políticas públicas relacionadas aos supostos portadores de doença mental. Estas políticas orientam para uma tal de “socialização” destes indivíduos, independente do perigo que possam eventualmente representar para si e para a sociedade. E isto no STF. Que ministro bem preparado, hein?

“Todo mundo sabe que o desarmamento é fundamental”. Estas são palavras do ministro sem explicar de onde adveio sua autoridade para fazer tal afirmação. Na posição que ocupa, não poderia jamais fazer tal generalização. Qual será a fonte em que ele se apoia para proclamar tal afirmação, quando a maioria dos brasileiros optou justamente pelo contrário do que este senhor afirma?

Ele justifica a afirmação anterior, com este absurdo: “Eu acho que o povo votou errado”. Como se vê este homem se considera o próprio Deus, que conhece o certo e o errado e, na posição de ministro do STF já decidiu que ele está certo e o povo, errado.

Culminando o monte de absurdos e demonstrando o quanto respeita a Constituição, o magistrado (?) afirma que “tem que ter (sic) uma maneira de entrar na casa das pessoas para desarmar a população”.

Este indivíduo é ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi escolhido pelo presidente da república e aprovado, por unanimidade, pela Comissão de Constituição e Justiça do senado.

É gente assim que garante o cumprimento da Constituição neste país?

A MODERNA DITADURA BRASILEIRA

Se fosse o caso de existir oposição no Brasil, algum oposicionista teria argumentos válidos para criticar os regimes impostos aos cidadãos da Venezuela, de Cuba ou de Mianmar? A resposta é não. O Brasil vive, há mais de oito anos, sob a ditadura dos acovardados, dos corruptos e dos vendidos.

Na civilização ocidental, a principal característica das democracias reside na existência de uma oposição organizada, capaz de incomodar os governantes e, mais importante, capaz de ser a trilha para as manifestações de insatisfação daqueles que são representados pelas câmaras legislativas.

Estados onde a oposição é fraca, omissa ou conivente nada mais são que ditaduras disfarçadas. Governos que consideram a oposição como inimiga, não passam de tiranos disfarçados. Os exemplos deste tipo de oposição e destes tiranos se repetem na história das nações e, infelizmente, o Brasil não aprende.

O vergonhoso congresso nacional brasileiro que, há muito tempo se afastou dos cidadãos, vendeu-se ao executivo, por medo, por interesse pessoal, por fraqueza, por omissão.

Os cidadãos brasileiros são reféns. Em consequência da conduta dos seus representantes – falsos - vivem, hoje, em plena ditadura, tanto quanto os cubanos e os venezuelanos, cujos representantes se venderam ao tirano do momento.