SERVIDÃO


Etienne de La Boétie


Pobre gente miserável, povos insensatos, nações obstinadas em vosso mal e cegas ao vosso bem, deixai roubar, sob vossos próprios olhos, o mais belo e o mais claro de vossa renda, pilhar vossos campos, devastar vossas casas e despojá-las dos velhos móveis de vossos ancestrais! Viveis de tal modo que nada mais é vosso. Parece que doravante considerareis uma grande felicidade se vos deixassem apenas a metade de vossos bens, de vossas famílias, de vossas vidas.


E todos esse estrago, esses infortúnios, essa ruína, enfim, vos advém não dos inimigos, mas sim, por certo, do inimigo, e daquele mesmo que fizestes como ele é, por quem ides tão corajosamente à guerras e para a vaidade de quem vossas pessoas nela enfrentam a morte a cada instante.

Esse senhor porém, só tem dois olhos, duas mãos, um corpo e nada além do que tem o último habitante do número infinito de vossas cidades. O que tem a mais do que vós são os meios que forneceis para destruir-vos.

De onde tira os inúmeros argus que vos espiam, senão de vossas fileiras? Como tem tantas mãos para golpear-vos, se ele não as empresta de vós? Os pés com que espezinha vossas cidades também não são os vossos? Tem ele poder sobre vós senão por vós mesmos? Como ousaria atacar-vos se não estivesse conivente convosco? Que mal poderia fazer-vos se não fôsseis receptadores do ladrão que vos pilha, cúmplices do assassino que vos mata, e traidores de vós mesmos?

Semeias vossos campos para que ele os devaste, mobiliais e encheis vossas casas para alimentar suas ladroeiras; educai vossas filhas para que ele possa saciar sua luxúria; alimentai vossos filhos para que faça deles soldados (esses ainda são felizes demais!), para que conduza-os à carnificina, torne-os ministros de suas cobiças, executores de suas vinganças. Consumi-vos no sofrimento para que ele possa mimar-se em suas delícias e chafurdar nos prazeres sujos. Enfraquecei-vos para que ele seja mais forte, mas duro, e que vos mantenha com a rédea curta; e de tantas indignidades, que os próprios bichos não sentiriam ou não suportariam, podeis vos livrar até sem tentar fazê-lo, apenas tentando querê-lo.

Decidi não mais servir e sereis livre. Não quero que o enfrenteis nem que o abaleis; somente não mais o sustentai e o verei, como um grande colosso a quem subtraiu-se a base, cair com seu próprio peso e quebrar-se.

(Discurso da Servidão)

4 comentários:

PELADUZ disse...

Boa tarde.

Post muito bom. Boa sorte a todos vcs.

Defensor, O Maldito disse...

Saudações

Excelente! Simplesmente excelente!

Somos responsáveis por nossa própria servidão, é como o interpreto.

Abraços

Passarim disse...

Sara,

Estamos de volta das férias. Vamos juntos nessa trincheira digital enfrentar nossa batalhas em prol de um país melhor. Conte comigo. Abs Jarbas do Aparte.

José Alberto Mostardinha disse...

Olá Saramar:

"... como um grande colosso a quem subtraiu-se a base, cair com seu próprio peso e quebrar-se."

É o que acontece a todos aqueles que se sentem enebriados com o poder.
O poder é efémero. O que fica é o resultado do exercício do poder.

Um beijo minha querida amiga,