FLOR CAÍDA

Imagem: Amelie Vuillon


"Tá lá o corpo estendido no chão...
E um silêncio servindo de amém."
João Bosco

A alma criança de João Hélio está em outras esferas.
Só seu corpinho frágil ficou ali.
Mas não ficou sozinho,
não ficará nunca mais sozinho.
Junto ao menino, agora anjo,
junto às lágrimas dos policiais
e ao pranto de bicho para sempre ferido de seus pais e irmã,
há muito mais.
Há o medo, o nosso terrível medo vestido de blindagens e grades.
Há a certeza feroz da impotência diante dos monstros
em sanguinário carnaval que nunca tem quarta-feira de cinzas.
Há a vergonha de viver em um país de covardes
também integrantes do eterno carnaval brasileiro,
onde usam a fantasia e a máscara imunda do poder,
qualquer poder,
para defender demônios,
assassinos de nossas crianças.

As crianças de verdade, como João Hélio,
ficam no chão,
acompanhadas dos mais tristes sentimentos.
Os monstros vão para os braços dos covardes
e, em aliança infeliz, cantam loas à impunidade.
Covardes, são todos covardes.
E não adiantam passeatazinhas
com pombinhas brancas.
Estas só servem para apagar
mais rapidamente
as marcas de sangue inocente no chão
e desanuviar consciências rasas,
apressadas, já vendo Momo.
São outro desfile de covardes
em carnaval impotente e mentiroso
de quem não se importa
com nenhum João
com nenhuma Maria.

13 comentários:

PELADUZ disse...

Oi Sara,

Pena que nosso país é este.

Que país seria este?

Ninguém sabe explicar.

Tem até explicação. Fizemos todos a coisa errada.

Bjs.

Joel S disse...

Estou em coma intelectual induzido. Mas respirando. Em breve um novo post. A pressão está cada vez maior.

j o c a

A Pata Irada disse...

Querida Saramar

Estamos todos enlutados. É mais um inocente que morreu, porque teve o azar de ter nascido no Brasil.
Estou muito sentida é como se tivesse perdido alguém da minha família.
Temos uma dívida para com este menininho João, e também para com todos os Joãozinhos que já foram vítimas. Se ficarmos calados e não exigirmos mudanças somos iguais a esses psicopatas criminosos.

Muito linda a tua homenagem e indignação. Tomei a liberdade de postar na pata.

Como tenho deixado em todos os blogs, também deixo aqui o meu desejo de "BOA SORTE" (é o que se pode desejar) e uma boa semana.

bjs.

ROÇA COISA É OUTRA LIMPA disse...

A injustiça é tão grande que nos afeta como se esse garotinho fosse um filho ou sobrinho...E o triste é ver autoridades dando entrevistas quase que defendendo abertamente os bandidos.

cilene disse...

Tristes brasileiros que brincam o carnaval, que nao respeitam as leis de transito, que dao jeitinhos em tudo e que nao se importam a morte dos Joaos.

Ricardo Rayol disse...

Saramar, isso me deixa tão puto que não consigo pensar em outra coisa a não ser matar esses animais.

Blogue da Magui disse...

Exatamente porque a trajetória do ódio e do rancor toma conta de tudo é que o amor e a generosidade perdem terreno.A morte deste menino foi terrível mas tem gente que endeusa Lampião que matava as crianças, batendo com a cabeça delas na parede e na frente dos pais.E muitos que se escandalizam são a favor do aborto.

Patacoadas do Cleber disse...

Saramar, belo poema. Que a indignação que vivemos nesse momento não esmaeça e possamos encontrar uma maneira de forçar os 3 poderes a agirem e em conjunto com a sociedade discutir e encontrar maneiras de impedir que crimes dessa e de outras naturezas continuem impunes. Um abraço e força para todos nós

CAntonio disse...

Falou tudo Magui.

E depois da quarta-feira de cinzas, ninguém mais se lembrará do João Helio... até o próximo crime horrendo....

SDS

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Queridíssima!!!
Cá estou eu de volta depois de um tempão e tentando aos poucos colocar a conversa em dia...

Sobre o ocorrido com o menino, sabemos todos e independente do lamento nacional, o que precisa ser mudado. Triste...

Teu espaço continua ótimo!!!
Virei com maior frequencia agora!!!

Beijo,
Cris

Suzy Tude disse...

Saramar, nem sei o que dizer mais. Acho que ainda estou em estado de choque. E o João é um símbolo do sangue inocente que o Estado conivente com o crime ajuda a enterrar.

Beijos

Dora disse...

Saramar. Está tudo aí: o inocente morto, a revolta que se sente, e, o mais triste, o esquecimento que vai envolver tudo, nas próximas semanas, com noticiários "novos"...
Talvez a dor e a vontade de fazer justiça permaneçam no coração dos familiares( sobretudo da mãe de João) pelo resto de suas vidas...
Mas, quanto aos demais, tenho certeza de que se esquecerão do sangue inocente que tingiu o chão.
Infelizmente.
Beijos.
Dora

Anônimo disse...

Pode ser que nossa dor expressa em poesia consiga sensibilizar essas muitas pessoas que não se vêem nas outras. E por isso, as atingem, violentam, matam.
José Augusto Fontes
Rio Branco/Acre